Embora a quarentena forçada pela pandemia de coronavírus tenha levado muitas escolas a buscarem formas alternativas de apresentarem o conteúdo didático aos alunos, a fim de que o ano letivo de 2020 seja salvo, boa parte das instituições de ensino brasileiras ainda não estava (ou não está) preparada para aulas online ou mesmo aulas no formato EaD.

A constatação foi feita pela pesquisa TIC Educação 2019, divulgado pelo Cetic.br.

Segundo o levantamento, somente 28% dos estabelecimentos de ensino situados em áreas urbanas têm ambiente ou plataforma virtual de aprendizagem. Desse total, a porcentagem é maior entre escolas privadas (64%). O número subiu na comparação com 2018, quando 47% das escolas privadas possuíam o serviço.

Entre as públicas, o movimento foi contrário e o quadro havia sofrido retrocesso. Nelas, o percentual de estabelecimentos com ambiente ou plataforma virtual de aprendizagem caiu de 17% em 2018 para somente 14% em 2019.

Esse cenário é o desenhado no Brasil pela Cetic.br até o final do ano passado, pouco tempo antes da pandemia de Covid-19.

E se a maioria das escolas luta para se adaptar a toque de caixa a essa nova realidade, por parte dos estudantes também há restrições.

Segundo o estudo da TIC Educação 2019, 83% dos alunos brasileiros das instituições de ensino localizadas nas cidades têm acesso à rede de internet, contabilizando o acesso via computadores de mesa, portátil, smarthphones e tablets. Desse percentual de estudantes que possuem acesso à internet no Brasil, 18% o fazem exclusivamente por meio do smartphone. Vale destacar, que essa porcentagem (de acesso exclusivo via smartphone) é maior entre os estudantes da rede pública de ensino, 21%.

Já o acesso à internet nas escolas rurais apresenta outra realidade. Nessas áreas do país, 40% delas têm ao menos um computador com acesso à rede e somente 9% utilizam a internet por meio de outros dispositivos.

Ainda segundo o levantamento, 33% dos docentes de escolas urbanas receberam algum tipo de formação a respeito do uso de computadores e internet recentemente. Outros 79% reclamam da ausência de curso específico para utilização dessas tecnologias nas aulas e apontam que esse fato dificulta o ensino. Confira o comportamento de professores, de acordo com a pesquisa, quando o assunto é acesso à internet.

Educação, Internet e tecnologia

O histórico das pesquisas sobre tecnologia e sua aplicação na educação, realizadas pelo Cetic.br, já vinha apontando aumento do uso da internet nessa área.

Pelo levantamento TIC Educação 2019, um a cada três docentes (35% do total de entrevistados) recebeu trabalhos pela internet, em escolas urbanas. O estudo mostra também que 48% tirou dúvidas dos alunos pela rede, e 51% disponibilizaram conteúdo na internet para suas turmas.

Levando-se em conta somente as escolas privadas, 52% dos professores receberam trabalhos pela internet, 65% tiraram dúvidas e 65% disponibilizaram conteúdo nas redes. Já nas escolas públicas esses números são menores e a pesquisa revela que nelas 31% dos professores receberam trabalhos pela internet, 44% tiraram dúvidas e 48% disponibilizaram conteúdo nas redes.

Entre os alunos, o uso da internet é parecido: 65% dos estudantes de escolas públicas e 66% das particulares lançaram mão da internet para produzir trabalhos escolares a distância. Apesar disso, somente 27% dos alunos de escolas públicas e 32% das particulares, usaram a rede para falar com os professores, o que aponta ainda falta de hábito e familiaridade com esse contexto virtual.

Quando o levantamento passa a analisar as avaliações, constata que 24% dos estudantes fez provas ou simulados por meio da rede e que 16% deles usou a internet para participar de cursos. Nesse caso, o smartphone é o principal meio de acesso: 58% dos alunos de escolas urbanas e usuários de Internet utilizaram esse dispositivo para realizar atividades escolares.

Redes Sociais Digitais

A pesquisa TIC Educação 2019 mostra que, enquanto parte considerável das escolas não possui plataformas virtuais ou ambiente de rede para compartilhamento de materiais e atividades entre docentes e estudantes, as redes sociais digitais avançaram como ambiente de divulgação de ações da escola e conteúdos pedagógicos.

No ano de 2016, 64% das escolas públicas urbanas possuíam perfil ou página nas redes. Esse número pulou para 73% em 2019. Já entre as particulares, essa porcentagem disparou de 85% para 94%, também entre 2016 e 2019. Nesse mesmo período, a porcentagem de instituições públicas urbanas cujos pais ou responsáveis utilizaram perfis ou páginas em redes sociais digitais para interagir com a escola cresceu de 32% para 54%.

Se os grupos no whatsapp ou lives promovidas pelas escolas estão em alta, o estudo detectou que faltam orientações para o uso seguro da internet e mesmo dos grupos em aplicativos para essa finalidade. Somente metade dos estudantes disse ter recebido orientações sobre segurança na rede, enquanto apenas 40% deles afirmaram ter recebido direcionamento sobre como proceder caso alguma coisa ou alguém os incomode na internet e nessa intereação. Entre o mais jovens, do Fundamental I, essa porcentagem de alunos que tiveram alguma orientação sobre segurança na rede é menor ainda: 36%.

O que muda com a pandemia?

De acordo com os pesquisadores da Cetic.br, a pandemia de Covid-19 e a consequente quarentena levantou indagações relevantes que terão que ser pensadas e levadas em questão quando o tema é garantia de acesso à educação.

As políticas públicas, no geral, voltadas à educação nos últimos 20 anos dizem respeito ao uso da tecnologia dentro da escola. A pandemia, no entanto, obrigou todos a ficarem em suas residências e, devido ao tempo longo de quarentena, as escolas se viram obrigadas a levar os conteúdos para dentro das casas (de alunos e docentes).

E, nessa questão, há pelo menos outras três: muitas residências de estudantes não têm ou não estão preparadas para as aulas online, conteúdo virtual, por não terem conexão banda larga ou mesmo dispositivos como computadores de mesa, portáteis, tablets.

A segunda questão diz respeito à formação dos professores. Quantos realmente migraram com facilidade das aulas presenciais para a online? Quantos estão acostumados ao uso da tecnologia para produção e adequação de seu conteúdo? Quantos dominam esse universo e não estão sofrendo para trabalhar dessa forma?

E a terceira parece óbvia, mas para muitos governos (estaduais e municipais nesse país continental) não o é: trata-se da ausência de políticas públicas voltadas à  inclusão digital dos alunos, especialmente das crianças, em suas casas. Como realmente está se dando o processo de ensino e aprendizagem para eles? Conseguem absorver o novo método? Precisam do auxílio dos pais?

A pandemia trouxe novos olhares para a educação no Brasil, por parte de docentes, gestores, e, vamos torcer, por parte do poder público. O momento, se bem aproveitado, pode ser precioso para a melhoria do setor. Basta ter criticidade para elencar os benefícios reais do que está sendo feito, ainda que a toque de caixa e sem planejamento, e para avaliar tudo o que precisa ser melhorado, alterado ou mesmo, em alguns casos, totalmente modificado. E mãos à obra!

O fato é que o uso de tecnologias agora deve ser deixado de ser olhado como acessório para ser pensado como forte aliado de acesso à educação.

TIC Educação 2019: dados coletados entre agosto e dezembro de 2019, com a realização de pesquisa presencial junto a 11,4 mil estudantes, 1,9 mil professores, cerca de 1 mil coordenadores pedagógicos e 1 mil diretores de escolas urbanas.Também foram entrevistados outros 1,4 mil diretores ou responsáveis por escolas rurais, por telefone. A pesquisa foi realizada junto a escolas públicas e privadas urbanas do 5º ao 9º ano do ensino fundamental e 2º ano do ensino médio, e em escolas públicas e privadas rurais de qualquer modalidade de ensino. Escolas federais não participaram do levantamento.

Por: Sandhra Cabral

Fontes: Cetic.br e Agência Brasil


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