Fato e opinião: duas coisas muito diferentes. Fato é um acontecimento puro e simples. Opinião é o fato narrado pela ótica de quem o conta, carregada, portanto, de viés subjetivo.

Apesar disso, 67% dos adolescentes brasileiros ouvidos pelo Pisa – Programa Internacional de Avaliação de Alunos – não são capazes de fazer essa distinção.

A falta de habilidade para compreender o que é um fato e o que é uma informação opinativa pode levar nossos jovens a tirarem conclusões erradas, formarem suas opiniões com base em dados absolutamente direcionados e até mesmo distorcidos, e não terem a visão total acerca de um determinado tema, o que, a grosso modo, significa impacto negativo para a cidadania e para a educação.

De acordo com o relatório da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico -, a alfabetização digital de jovens do mundo está, em média, estagnada desde o ano 2000, e embora sejam nativos digitais, a intimidade deles com a tecnologia por si só, não os torna habilitados para compreender, separar o joio do trigo e utilizar de maneira eficiente o conhecimento disponibilizado na internet.

O levantamento mostra que a maioria dos adolescentes, além de não conseguir distinguir o que é fato do que é opinião, são incapazes de compreender ambiguidades em textos online, encontrar conteúdos confiáveis em buscas feitas na internet, em e-mails, aplicativos de mensagens e conteúdos compartilhados nas redes sociais digitais. Também não são habilitados, em sua grande maioria, de avaliar a credibilidade de fontes de informação.

As conclusões foram apresentadas pela OCDE na semana passada, com base no relatório Leitores do Século 21 – Desenvolvendo Habilidades de Alfabetização em um Mundo Digital.

O estudo condensa as habilidades de interpretação de texto dos alunos de 15 anos avaliados no Pisa, exame internacional aplicado pela OCDE em 2018 em estudantes de 79 países ou territórios, inclusive no Brasil.

Segundo a pesquisa, apenas metade dos estudantes em países da OCDE informara terem sido ensinados na escola a reconhecer se a informação que estão lendo é direcionada, e 40% deles foram incapazes de reconhecer os perigos de se clicar em links de e-mails de phishing.

As habilidades de navegação foram consideradas eficientes para apenas 24% dos estudantes na média da OCDE, e em termos de Brasil, para apenas 15% dos jovens.

As consequências dessa falta de capacidade para distinguir os níveis de informações que chegam a eles são profundas para a inserção no mundo do trabalho e para o exercício da cidadania.

Pessoas incapazes de interpretar e compreender textos de forma plena, além de serem presas fáceis para o ambiente de desinformação que floresce na internet e nas redes sociais digitais, como as fakes news, teoricamente também estão menos aptas a ocupar empregos de alta complexidade.

Na internet todo mundo posta o que quiser e, necessariamente, é preciso ter senso crítico e capacidade de interpretação de textos, curiosidade para buscar as fontes dos fatos para não ser literalmente tragado por mentiras ou distorções dos dados.

Tecnologia e alfabetização

Os dados da pesquisa da OCDE revelam que, embora sejam nativos digitais, os jovens não aprendem instintivamente as habilidades necessárias para usar a tecnologia para obter informações confiáveis.

Os índices de alfabetização digital dos jovens evoluíram pouco nas avaliações do Pisa feitas entre 2000 e 2018, apesar das enormes mudanças sociais e digitais vividas pela comunidade global nesse intervalo de tempo.

Mais do que contato constante com a tecnologia, Andreas Schleicher, diretor de educação da OCDE, defende que são a aprendizagem tradicional e o engajamento de professores que farão a diferença em dar aos alunos a capacidade de entender diferentes perspectivas em um texto e serem capazes de identificar nuances e opiniões.

O relatório aponta que, em sistemas educacionais nos quais essas habilidades digitais são ativamente ensinadas, estudantes pareceram mais capazes de distinguir fatos de opiniões.

De qualquer maneira, Schleicher acredita ser esse um problema que ultrapassa os muros da escola e exaltou o trabalho de países que já têm cultura enraizada de leitura e alfabetização, como Dinamarca, Finlândia, Estônia e Japão.

O que se sabe é que o educador tem um papel central nisso, à medida que mudam as habilidades exigidas dos estudantes: no século 20, esperava-se que um aluno obtivesse conhecimento de fontes pré-curadas, como enciclopédias.

Hoje, ele precisa aprender a distinguir o que é relevante entre milhares de resultados de uma busca no Google; precisa ser capazes de construir conhecimento e validá-lo, opina a OCDE.

“Os educadores precisarão ser grandes mentores, mobilizadores e guias” nesse processo, conclui Schleicher.

Bora ler? E muito? 

Embora a leitura esteja mais fragmentada e migrando cada vez mais ao ambiente virtual, o relatório da OCDE mostra que o papel dos livros e de textos aprofundados continua sendo primordial.

Os estudantes que reconheceram que ler livros com mais frequência em papel do que nos meios digitais renderam a eles melhores resultados em leitura, em todos os países e territórios que participaram do Pisa 2018. O problema é que 49%  deles afirmaram só ler se fosse realmente necessário.

Diante de todas essas conclusões, o incentivo a leituras de profundidade, que permitam aos alunos treinar a observação de nuances no texto, é uma estratégia capaz de melhorar as habilidades de compreensão textual tão valiosas no século 21, a era das fake news.

Nesse quesito, os professores são fundamentais, mas os pais certamente podem contribuir com o estímulo à leitura desde a mais tenra idade.

De acordo com a OCDE, os estudantes que revelaram ter pais que gostam de ler também apresentaram índices mais altos de prazer com a leitura.

Pandemia e vida online

A pandemia de covid-19 obrigou que todos migrássemos para o mundo virtual. Tudo bem, necessário… E temos que lidar com isso, buscar novas formas de alfabetizar nossas crianças e jovens. Saber o que é preciso mudar para que eles evoluam. Precisamos formar seres pensantes e críticos para a vida neste século 21.

“Para muitas crianças em idade escolar e até mesmo professores, a desinformação nos tempos pré-pandemia talvez parecesse algo remoto, uma preocupação política de pouca relevância no pátio da escola ou na sala de professores. Hoje, a infodemia (como especialistas se referem à proliferação de falsas informações em grandes volumes, como ocorre em tempos de covid-19) e a incerteza sobre fatos científicos e de saúde básicos capturou o foco dos alunos de 15 anos – e seu anseio por soluções”, afirmam os pesquisadores no relatório da OCDE.

Na opinião deles, “a alfabetização no século 21 significa parar e olhar para os lados antes de seguir adiante online. Significa checar os fatos antes de basear suas opiniões nele. Significa fazer perguntas sobre as fontes de informação: quem escreveu isto? Quem fez este vídeo? É de uma fonte confiável? Ele faz sentido? Quais são os meus vieses? Tudo isso cabe ao currículo escolar e ao treinamento de professores. E tudo isso tem implicações que vão muito além de detectar notícias falsas e desinformação: assegurar o ato de tomada de decisões bem informadas e assegurar a base de democracias funcionais.”

E você, educador e gestor de educação, o que pensa sobre o tema? Qual o seu trabalho a respeito da alfabetização digital, compreensão de texto, estímulo à leitura em papel, e orientações sobre como desvendar uma fake news por meio de checagem de fontes?

Conte pra mim! Aguardo vocês! Vamos buscar novos formatos juntos aqui no Educar para Ser Grande!

Fontes: OCDE e Portal BBC Brasil


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